Liberdade – fora com ela!

Imaginemos uma situação hipotética: você vai até uma loja de roupas famosa, que possui as roupas mais duráveis e bonitas e escolhe uma calça. Na hora que você vai pagar, você tem o seguinte diálogo com o atendente:

Atendente: Bom dia, senhor. Antes de pagar, o senhor sabe que você não pode usar essa calça para ir para festas, não sabe?
Você: Desculpe… como assim?
A: O fabricante dessa calça proíbe terminantemente de usar a calça em festas, baladas, raves, ou similares…
V: Como é?
A: E também, você vai encontrar na etiqueta da calça um site. Note que apenas as roupas listadas naquele site podem ser usadas com essa calça…
V: Desculpe, do que você está falando? Quer dizer que o fabricante recomenda as roupas que eu posso usar com essa calça?
A: Não, senhor, o senhor entendeu mal. O fabricante proíbe que você use qualquer outra roupa com essa calça. Caso o senhor seja pego usando uma roupa diferente do que ele citou no site, confiscaremos a calça e o senhor terá que pagar uma multa…
V: Desculpe, eu gostaria…
A: Aproveitando, o senhor não pode modificá-la, alterá-la, tingí-la…….

Parece absurdo? Bom, de fato é. Mas então, por que as pessoas concordam que a Apple faça isso com seus produtos? O mais novo brinquedinho deles, o iPad, é tão restritivo quando o iPhone, que por si só já é o maior absurdo tecnológico da história – mas não, é Apple! Tem que ser bom, não?


Para os que estão por fora do assunto, o iPad é o Tablet da Apple, lançado recentemente. Jobs, mais uma vez, ligou seu “campo de distorção da realidade” e todas as pessoas ajoelharam-se aos seus pés, dizendo que o produto é a maior revolução da história, etc… porém, assim com o iPhone, esse “equipamento revolucionário” não permite que você instale aplicativos que não foram homologados pela Apple. Seu amigo é programador e fez um jogo incrível? Pois é, se a Apple não aprovar, você não pode instalar – não importa que seu tablet é dez vezes mais rápido que o dele. Aliás, se você mesmo quiser montar um programinha, seja lá qual for, e quiser incluir no seu iPad – não, você não pode.

O que me incomoda é o fato de que há pessoas dizendo que isso é uma coisa boa!

Yehuda Katz, um dos membros do excelente framework Ruby on Rails, em seu blog cita que “a ironia é que fechando o desenvolvimento de aplicativos você força o desenvolvedor a usar HTML5 e outras tecnologias Web que são abertas” e blábláblá, meio que confirmando o mito que “programadores Ruby não sabem que existem aplicativos offline”.

A minha pergunta é muito simples: se eu compro um equipamento (e pago caro nele!) eu não tenho o direito de usá-lo da forma que eu achar melhor, sem obviamente desobedecer as leis do meu país? Se eu compro uma máquina de lavar roupa, e quiser colocar um tijolo dentro dela, é evidente que isso vai danificar a minha máquina. E nem por isso as fabricantes me proíbem de fazê-lo. Será que isso tudo é medo?

E calma, não é só a Apple que faz isso – o novo sistema operacional do Google, ChromeOS, também proíbe de instalar aplicativos. Pior, ele proíbe de instalar QUALQUER aplicativo, e também faz update do sistema sempre que achar conveniente – você não tem a opção de impedí-lo. E, assim como sua concorrente, ele também divulga isso como uma Coisa Boa ™.

E no fim, quem está cooperando com software livre é a Microsoft… mundo estranho esse não? E além disso, ainda mais estranho que suas concorrentes tenham encontrado uma maneira impressionante de impedir o crescimento do software livre – simplesmente proibindo de instalar softwares em seus sistemas. Fácil, prático, e sem cair nos velhos problemas de ameaçar, blefar dizendo que estão infringindo patentes, etc…

E, enquanto isso, aqui em nosso mundinho, as pessoas aceitam sem questionar (pior – aceitam achando que titio Jobs está fazendo um favor para a humanidade) esse tipo idiota de mercado. Brigas pelas operadoras de celular para habilitar a portabilidade e o desbloqueio de aparelhos (afinal, você comprou – é seu direito de colocar a operadora que você quiser!), de mercado para evitar o monopólio (afinal, você precisa de um produto/serviço – é seu direito escolher de quem comprar!), de permitir liberdade de escolha, e uma empresa, UMA, APENAS UMA EMPRESA consegue acabar com toda essa “onda de bom senso” que o mercado pareceu adquirir.

Parece, realmente, que os brasileiros estão ficando mais “americanizados” do que eu imaginava…

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