Ensaio Sobre a Violência

Este será um post totalmente off-topic*, mas tudo bem.

Quando eu era mais novo, lá para a minha pré-adolescencia, lembro de ter assistido ao filme “Ghost – do outro lado da vida”. Muitos já devem tê-lo assistido também. Lembro que na época, meu pai estava começando a seguir o espiritismo, e não lembro mas acho que foi por este exato motivo que estávamos assistindo ao filme. Lembro também de ter comentado que os vilões meio que se matavam sozinhos, e meu pai concordou comigo, mas por algum motivo aquilo não me pareceu certo… parecia que tinha algo muito errado com o filme, com a forma como o personagem principal enfrentava os vilões, mas antes de explicar direito o que eu pensei, vamos para outro filme: “Jogos mortais”. Numa primeira comparação, parece que o vilão de Jogos mortais é bem mais cruel e perverso do que o mocinho de Ghost, porém fazendo uma comparação mais completa, isso não é verdade.

Vendo pelo seguinte lado: em Ghost, o personagem principal morre, e como fantasma caça seus assassinos. Quando os encontra, os assombra até que eles, assustados como nunca, acabam se matando “sozinhos”. Soa familiar? O estranho é que, para a maioria das pessoas, Sam (de Ghost) não é um “vilão” como o de Jogos mortais, por exemplo, embora a atitude de ambos os personagens é exatamente a mesma. Talvez possam vir papos do tipo “mas os personagens que Sam mata são assassinos, e ele faz isso sem intenção, blá blá”, mas a verdade é que isso não importa a mínima – a reação que parecemos ter quando uma pessoa é morta difere demasiadamente dependendo se a pessoa era “boa” ou “má”.

Mas, ficar feliz porque uma pessoa “má” morre não é algo saudável, também. Isso leva ao título desse post: violência. Independente de qualquer fator, matar alguém é um ato de violência, e sentir-se feliz/aliviado com isso é apreciá-la, de uma forma ou de outra.

Outra coisa interessante a comentar é o livro que eu li recentemente, “O Caçador de Pipas”, numa parte em que o pai do personagem principal cita: “Só existe um pecado, e ele é ‘roubar’. Todos os outros são variações deste primeiro. Quando você mente, está roubando de uma pessoa o direito dela saber a verdade. Quando você mata alguém, está roubando de um filho o direito a ter um pai, de uma mulher o direito a ter um marido”. Eu extenderia esse conceito à “Violência”. Mentir é um tipo de violência, assim como praticamente todos os subterfúgios que uma pessoa pode usar contra outra.

Sendo mais claro, a vida humana como é hoje trabalha num esquema de “quem manda”, e “quem obedece”. Até mesmo no “socialismo” quem manda é explicitamente o governo. Esse tipo de violência nos trás situações de “chefe-funcionário”, “pai-filho”, “país desenvolvido-país subdesenvolvido”, e assim por diante. Com o tipo de sociedade que temos hoje, acho difícil que as coisas mudem tão facilmente, então seria desejável que, pelo menos, as pessoas deixassem de compactuar com a violência e pudessem frear esse fluxo indesejável… isso é, se é que ele é realmente indesejável, não?

Um exemplo bem bobo: quando estamos num carro, aconchegantes, e vemos o farol de pedrestres ficar vermelho para nós, muitos aceleram o carro, pensando “ah, esses cinco segundos não vão fazer diferença para ele”. Pois bem, às vezes esses “cinco segundos” são, na verdade, os segundos suficientes para o pedestre perder o ônibus, e isso pode gerar uma série de problemas que, provavelmente, nós dentro de nossos carros aconchegantes não teríamos se, digamos, ao invés de chegar às 8:00 no trabalho, chegássemos às 08:02, por causa de um farol. Você provavelmente nunca mais vai lembrar nem sequer que existiu um pedestre, mas ele provavelmente lembrará pelo menos o dia todo daquele “golzinho azul desgraçado que não parou no farol”. E isso é apenas uma das mais brandas formas de violência.

Digamos agora, uma relação pai-filho (que, muitas vezes, é muito semelhante à relação chefe-funcionário): o filho é sempre incentivado a estudar, a aprender, a “ser alguém na vida”, mas quando o que ele aprende contradiz o que o pai sabe/acredita, quais serão as palavras do pai sobre isso? “Nossa, filho, que legal, você aprendeu algo muito melhor ao que eu sei, você me superou”, ou será mais provável a frase “Nossa, filho, quanta besteira que você está falando, eu sei que assim não funciona”… mesmo que essa última parte, “sei que assim não funciona”, na verdade significa “não faço a mínima idéia do que é isso, mas vou fazer de conta que sei e vou menosprezar assim mostro como sou superior”. Ao mesmo tempo, qual será a reação do flho? Pensar “Puxa, superei meu pai e agora ele está com receio de mostrar que eu sei mais que ele”, ou “Puxa, meu pai tem razão, como eu fui pensar nessa besteira”? Ou será algo mais fácil de imaginar que o filho ficará triste, num canto, pensando “Puxa, meu pai sempre me incentivou a estudar, e agora ele menospreza o que eu estudei…”. Vale considerar também que, em alguns casos, o filho pode até mesmo pensar que o pai o considera um completo incompetente… mesmo quando seus estudos provam o contrário.

O pior é que, no caso anterior, provavelmente o pai ficará feliz com a reação triste do filho. Não é algo consciente, mas é algo que traz um certo alívio, uma sensação de “ah, sou o melhor, daqui a pouco ele se supera e tudo volta a ser como era”, acreditando que uma certa hora o sentimento de “veneração” que o filho possuía voltará. Um sentimento semelhante à reação das pessoas quando vêem a notícia “suposto traficante X é morto pela polícia em troca de tiros” – um alívio que ignora a palavra “suposto”, ignora o sofrimento de quem estava no meio do tiroteio morrendo de medo, ignora os feridos e além disso, ignora o fato de que, bem ou mau, uma vida humana foi tirada – tão humana quanto a própria pessoa que está vendo a notícia. Como julgar que um assassino (serial killer, talvez?) seja um psicopata porque não se arrepende de ter matado alguém, quando nós mesmos nos alegramos com a morte de outro ser humano?

É importante citar que, no exemplo do pai ainda, o filho não voltará a venerar o pai na maioria das vezes. No mínimo, terá receio de conversar com ele sobre certos assuntos, até mesmo escondendo o que está estudando, e aí toda a possibilidade do pai de aprender mais vai por água abaixo. Isso quando traumas maiores não aparecerem, e o filho desenvolve uma certa deficiência em defender suas descobertas, ou mesmo de tentar aprender por conta própria qualquer coisa, afinal, seu próprio pai, que o ama, o cortou… que dirá os outros.

Parece absurdo? Pois bem, Hitler em sua biografia, conta sobre como seu pai não o deixou seguir a carreira que ele queria. Muita da personalidade dele pode ter se condensado nesse ponto, exatamente. Michael Jackson era e sempre foi uma pessoa estremamente esquisita em todos os aspectos, inclusive se envolvendo em vários escândalos – também, teve uma infância bizarra com seu pai (inclusive, seu testamento deixou todos os bens para a mãe e os filhos, apenas). Há tantos exemplos como há nuvens no céu, então, continuando…

Quando falamos de “novas gestões”, de “trabalhar com pessoas”, até mesmo dos novos paradigmas de uma chefia mais “humana”, não estamos falando de uma “opção”, mas deu uma “necessidade”. Quando falamos que, agora, os pais devem criar seu filhos de forma mais presente e afetiva, também é uma “necessidade”. Já que, no momento, é impossível acabar com a idéia dos “que mandam” e os “que obedecem”, então que os “que mandam” pelo menos não compactuem com a “violência maior”: dizer “faça isso porque eu quero que você faça” é diferente de “eu pensei em fazer isso dessa forma. O que você acha, você tem sugestões de outra forma?”. A segunda maneira só tem a ganhar: você incentiva um funcionário a sempre estar estudando, para poder participar da tomada de decisões com você. Da mesma forma, quem faz o serviço é normalmente quem tem um entendimento maior do problema, e se ele pode optar por qual solução é melhor, é provável que ele acerte melhor do que você. Da mesma forma, você e ele aprendem, e tudo evolui junto: a tecnologia (no caso de uma empresa de tecnologia) está sempre se renovando e inovando.

Mas vale lembrar que a violência está enraizada em nós. Então, a segunda opção pode despertar um sentimento de “meu chefe está me testando”. É muito comum estarmos na defensiva, e é algo que o novo gerente deve estar atento: se o funcionário está na defensiva, você não pode repreendê-lo por isso, e sim deixar claro para ele, por gestos e não por palavras, que você está sendo sincero. Lembre-se sempre da frase: “as pessoas são julgadas pelos seus atos, e não por suas palavras”.

* PS: Talvez, não tão off-topic assim. Bem ou mau, no emprego atual, o setor que estamos está sofrendo um tipo de violência semelhante ao exemplo do pai…

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3 Responses to Ensaio Sobre a Violência

  1. Ferio says:

    Boa, gostei do texto. Se encaixa perfeitamente no contexto…

  2. Pingback: Tweets that mention Ensaio Sobre a Violência « Maurício Szabo -- Topsy.com

  3. Nazareno says:

    “as pessoas são julgadas pelos seus atos, e não por suas palavras”…

    Chame alguém por alguma característica pessoal e veja se não será SUMARIAMENTE JULGADO!!!
    (Racista, Homofóbico, Preconceituoso, bla bla bla…)

    “A Palavra Mata!”

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